5 de junho de 2011

pílulas coloridas

Minha mãe abriu as cortinas, pintou minhas unhas de verde-líquen. Disse que eu estava muito pálida, muito magra, muito morta. Eu só queria você, só queria teu cheiro na minha pele outra vez. Ela resolveu me levar no médico e ele receitou pílulas coloridas. Remédios para dormir, comer, sorrir. Parei de tomar as pílulas no 3º dia. Passei a descascar paredes e escrever nos ladrilhos da cozinha. Quando as paredes e os ladrilhos acabaram resolvi voltar a tomá-las. Depois de dois meses comprei flores e livros de poesias. Tudo parecia ir bem, até eu sonhar que você vinha me ver. Passei uma semana sem dormir. Seria você uma alucinação ou eu queimei todas as tuas coisas enquanto estava alucinada? Eu só precisava de alguém. Percebi que um vizinho costumava me olhar quando eu fumava de calcinha na varanda. Ele me deu um buquê e eu me dei. Ele era fotógrafo mas também gostava de pintar. Conversávamos sobre política enquanto cigarros e vinhos acabavam nas madrugas. Ele não era você mas pelo menos sabia cozinhar. Ele foi embora e levou junto a pouca sanidade que eu tinha. Disse que ia pra Europa mas já voltava. Quem vai pra Europa não volta mais. Enterrei as pílulas em um vaso e vi orquídeas nascerem.