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5 de junho de 2011
pílulas coloridas
Minha mãe abriu as cortinas, pintou minhas unhas de verde-líquen. Disse que eu estava muito pálida, muito magra, muito morta. Eu só queria você, só queria teu cheiro na minha pele outra vez. Ela resolveu me levar no médico e ele receitou pílulas coloridas. Remédios para dormir, comer, sorrir. Parei de tomar as pílulas no 3º dia. Passei a descascar paredes e escrever nos ladrilhos da cozinha. Quando as paredes e os ladrilhos acabaram resolvi voltar a tomá-las. Depois de dois meses comprei flores e livros de poesias. Tudo parecia ir bem, até eu sonhar que você vinha me ver. Passei uma semana sem dormir. Seria você uma alucinação ou eu queimei todas as tuas coisas enquanto estava alucinada? Eu só precisava de alguém. Percebi que um vizinho costumava me olhar quando eu fumava de calcinha na varanda. Ele me deu um buquê e eu me dei. Ele era fotógrafo mas também gostava de pintar. Conversávamos sobre política enquanto cigarros e vinhos acabavam nas madrugas. Ele não era você mas pelo menos sabia cozinhar. Ele foi embora e levou junto a pouca sanidade que eu tinha. Disse que ia pra Europa mas já voltava. Quem vai pra Europa não volta mais. Enterrei as pílulas em um vaso e vi orquídeas nascerem.
24 de outubro de 2010
flores mortas no cinza vivo
Me acordaram. arrombaram a nossa casa pra me dizer que eu não poderia mais falar ou então eles iriam me machucar. era mais uma lei sem fundamento. "pessoas com o nível de sensibilidade emocional elevado perderam o direito de falar por serem um atraso às pessoas normais". perdi o direito de falar e junto o dever de ouvir. me deixar muda me deixou surda. palavras mentem, pessoas também. passei a enxergar e sentir mais. passei também a falar com os olhos e escrever declarações sem fim pra ti na areia, assim, o mar pegava as palavras e quando a chovia minhas frases bobas escorriam pelo teu rosto. agora eu uso roupas floridas. há cinza demais na cidade. perdi meu emprego e minha casa mas ganhei tudo de volta quando eu acordei. já fazia 3 anos que eu não te via. quer dizer, eu ainda te via a tua sombra na nossa cama. os suspiros morreram todos e os livros foram devorados por inteiro. cortaram a tv. cancelaram o jornal. eu estava perdida naquela cidade que era tua. eu só era uma luz apagada no meio de luzes que brilhavam sem parar. enquanto eu tragava meus cigarros com gosto de vento me lembrava da sensação de ter meu coração batendo junto ao teu. pararam de ler meus textos e eu os parei de publicar. não gostam de textos grandes, falta de coerência e pontos e vírgulas mal colocados. a poeira virou neve. era dezembro outra vez. parei de contar os anos.
6 de outubro de 2010
neblina
As cores passavam por mim sem querer conversar. as luzes se misturavam e me deixavam confusa. o coração resolveu respirar fundo para se acalmar. nossos nossos iam desmoronando e virando nada. 'conversas de botas batidas' tocava em um bar. bêbados tristes choravam e jovens felizes cantavam. minhas palavras são tortas em linhas retas. eu queria um fim para as minhas histórias mas você preferia inícios. o fim era para os fortes e tu eras fraco. tua alma era pequena e meus textos cinza demais. a noite virou noites. que vinham sem a luz do dia. você, perdido, vagando por entre os anúncios do jornal e eu brincava de ser mulher. brincava de não ser tua. dormir não era tão bom. acordar muito menos.
tudo virou neblina.
tudo virou neblina.
1 de outubro de 2010
purpurina
E eu olhava nos teus olhos,que hoje pareciam azuis,eles não mentiam. estávamos lá,perto da entrada do show,seus olhos que antes refletiam meus sorrisos agora fugiam dos meus olhos que perguntavam confusos o que tinha acontecido para tamanha mudança. era ela. sempre foi ela,a dona do brilho dos teus olhos. então olhei pra baixo para não veres que os meus sorrisos tinham virado água de mar que corria pelas minhas bochechas. botei a mão no bolso e senti a purpurina. então me lembrei do dia em que dormistes lá em casa e me sujastes de purpurina roxa,que segundo você era a poeira dos meus sonhos. e ao me lembrar disso,dessa lembrança tão boba,percebi que um sorriso nascia por debaixo das lágrimas que não paravam de cair. você,parado na minha frente com a cabeça nela e eu com o bolso,os sonhos,os dias atrás na cabeça. olhastes pra mim,com olhos tão cheios de tristeza por causa dela. e então antes que eu fizesse algo,me abraçastes e me cobristes por inteiro. nos olhamos por algum tempo e conversamos com os nossos olhos. aquele era o fim. não ouvíamos a música que tocava no fundo,não ouvíamos mais nada. respirei fundo e te soltei pro mundo,pra ela. enquanto você andava e levava partes de mim contigo,lembrei que faltava algo. corri em tua direção,peguei um pouco de purpurina e joguei na tua mão,pois aquela poeira brilhante não era minha,tinha partes tuas também,era a poeira dos nossos sonhos que ficaria guardado pra sempre em mim,e agora,em ti também.
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